março 15, 2017

Notas sobre um fim.

Conversas, Inspiração, Viagem

[possui gatilhos]

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Quando a gente começa um relacionamento, nunca espera ver o dia em que ele vai ou pode terminar. E se começa pensando nisso é por que algo não começou bem. Por mais experiência que se tenha nessa área, cada historia que começa é um livro novo e cada situação, mesmo que tenha jeito de déjà vu, é nova.

Rompimentos são extremamente dolorosos e há quem demore anos pra se recuperar, há também feridas que nunca cicatrizam direito e, por algum tempo, a gente vive na espera daquele momento em que as coisas ruins são esquecidas e somente as coisas boas restam na memoria. Mas ele demora a chegar.

No começo, mesmo quando esse começo é conturbado, a gente faz tudo dar certo, a gente se apaixona, tem aquela sinergia, vocês sabem como é. Depois começam a aparecer as pequenas pedrinhas no caminho, um desentendimento aqui, um mau humor ali, e, vez em quando, aparecem aquelas pequenas dúvidas. A gente conversa, se entende, e tudo fica resolvido. E nesse processo, aprende-se a jogar e isso mudará a relação pra sempre.

A coisa cresce, e cresce muito, são vários “eu te amo”, varias noites em que a gente acredita que “nunca terá essa conexão com outro alguém” e tudo muda de tamanho, ganha outras proporções; a intimidade é extrema e vira aconchego.

Então acontece a primeira ruptura, um cisma, um susto: uma discussão, depois de tantas outras, e num rompante depois de bebida misturada, você vê aquela mão erguida em sua direção e um semblante furioso na sua frente. Aquele gesto que a gente nunca imagina que verá, que no auge do seu feminismo você pensa “comigo, nunca”. O cisma cresce e o rompimento chega de vez. É violento, mas não é físico, tudo é manuseado à distância, pelo computador.

Você segue adiante, destruída, sem chão, sem casa, mas confortada por amigos e pelo seu trabalho.

Passam-se meses de tentativas de comunicação da parte do outro, telefonemas (bloqueados), e-mails (bloqueados), ligações de Skype (bloqueadas), é um jogo de ping-pong, uma disputa de poder, micropoder, quem vai ceder primeiro? Você tenta se blindar de todas as formas, mas a insistência nos alcança e a gente abre espaço pro “tentar de novo”. Porque? Porque a gente ama. Pois é, tem amor. E isso não se apaga da noite pro dia. E quando é tanto amor fica ainda mais difícil separar a lógica do que se passou com a esperança infantil do que pode vir no velho-novo.

Mas as magoas são enormes, elas não passam, não adianta terapia ou falar com amigos, a intimidade daquelas lembranças ruins está entranhada em você e cabe somente a você decidir se livrar dessas mágoas. Você acredita que se livrou delas.

Passa-se mais tempo, vocês se tornam cada vez mais amigos, mais próximos, há mais intimidade, parece que vai ser pra sempre. Trocam-se anéis e juras, você nunca se imaginou naquele momento, e foi magico: as fotos, em preto e branco, ainda estão no seu celular. Você acredita, mesmo com medo.

Mas depois as magoas voltam, feito bola de futebol que a gente afunda ate o chão da piscina e que quando volta à superfície joga agua pra todo lado. E se você não consegue lidar com elas, em parceria, os dois, a situação piora e culmina numa ruptura. Você não sabe como fazer, só sabe que não está feliz, então recorre a um truque usado ha milênios na historia do homem, mas não na da mulher: viajar. A mulher viajando sozinha é “devaneia”, “promíscua”, “maluca” e toda a sorte de horrores que possam imaginar.

Mas você recorre a jornada, recorre a sair pela estrada, de mochila nas costas, pra sentir o isolamento e tentar amadurecer aquela dor e não deixar aquele amor morrer. Porque ele não morre. Não morreu.

Você encontra gente, muita gente, conversa muito, mas aquele amor continua ali e as magoas começam a ser processadas. O contato não é tão frequente e pro outro vira tortura. Nesse jogo de faz-de-conta, você se impõe como força inabalável. O que pro mundo parece passeio e férias de veraneio, pra você é um processo doloroso de recuperação: recuperação daquelas memórias boas, somente das coisas boas, pra deixar as magoas escorrerem.

Mas o amor que ficou no porto, na espera, não tem paciência, e ele também se machuca com a distância. Você não sabe comunicar, não sabe explicar, então começa a escrever, um dia apos o outro e, quando vê, voilà: nasce um livro. Mas ele não tem sentido se quem você gostaria que o lesse de fato ainda não o leu. Você esconde. Esconde a saudade, esconde as coisas ruins, e todos acham que você está bem. Que tudo esta bem. Vocês se reencontram algumas vezes, e nada mudou: a sinergia, as coisas divididas, as conversas, os interesses, tudo continua o mesmo.

Passa o tempo, chega uma hora que a decisão precisa ser tomada: você se desencontra nas suas palavras e tudo desanda pra um fim. Você coloca um ponto e vírgula, porque não quer ponto final.

As conversas seguem estranhas, um contato aqui e outro ali, rompantes de saudade, de magoas jogadas no Whatsapp. Vocês se veem de novo: se beijam, se olham, choram, a dor é horrível e você não quer partir, mas vocês partem. Cada um pro seu canto, e o contato continua.

Porque o contato é desejado, era desejado, é de verdade, mas o amor não vence tudo. Amor sem trabalho não funciona. Amor sem dialogo não comunica. Amor se esforço não vai pra frente.

Amor por amor, não existe. E quando as coisas parecem caminhar pra um final em que você pode dizer “superei as magoas”, o outro resolveu partir. E você, já em outro caminho, não pode procurar o encontro. It takes two to tango. Mas somente um pra virar o jogo: com muita vontade e pouco carinho o outro vira os pontos, porque “quer ser melhor”. E, assim, pisando num erro passado imaginamos que vamos crescer sem erros futuros.

E o que sobra, mesmo com tanto desencontro: amor. Muito amor. Um amor que dói porque não pode mais ser. Um amor que os terapeutas tentam chamar de “sabotagem”. O interesse de terceiros não te interessa. Você só sabe se esconder dentro daquele amor. E se alimentar dele ate a tempestade passar. Porque ela passa.

E ao final, eles tem razão: omnia vincit amor.

novembro 12, 2016

Viagem solitária

Conversas, Inspiração, Travel Writing, Viagem

Screen Shot 2016-11-12 at 16.34.47 Costuma-se pensar que o viajante que prefere lugares mais solitários – o viajante do deserto, por exemplo – é aquele que deseja fugir do seu mundo e dos que o conhecem. Essa visão popular dá um caráter misantrópico às suas jornadas. Para ele, a delicadeza do cotidiano não é um atrativo; […] Essa finita e infinita estrutura civilizatória deveria ser seu objeto de aversão a qual ele deixa pra trás. […] [Mas] entre todas as pessoas os descontentes são os menos capazes de viver consigo mesmos por muito tempo…

O verdadeiro explorador, aquele cujas viagens são pura felicidade, não parte sozinho para se esconder, mas para procurar.

Freya Stark (1893-1993)

novembro 10, 2016

Trabalho ou liberdade?

Colaborações, Conversas, Inspiração

Uma amiga fantástica e escritora, Sara Gvero, publicou uma cogitação reflexiva (!) sobre pessoas que estão passando pelo complicado e exaustivo processo de troca de carreira e resolveu falar um pouco sobre mim. Parece auto-propaganda, mas não é! Vale a leitura. Sara escreve para vários canais, e sempre sobre temas de alguma forma relacionados a mulheres, entre eles a revista italiana Pequod Rivista. Leia o texto de Sara aqui http://pequodrivista.com/reflecting-on-work-and-freedom/

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